A genese de um imortal: capítulo quatro - A queda e a continuação
As duas semanas se estenderam mudas, deprimidas. Enquanto caminhávamos para lugar algum Cenis mantinha os olhos nas suas lembranças, como se quisesse provar de tudo novamente para poder justificar seus futuros atos. Os ventos batiam do norte, fazendo frente do que viria, sendo um prólogo do tempo futuro, ainda um pouco distante.
As semanas se prolongavam, enquanto os dias passavam e Cenis continuava com seu silêncio, que começou a me incomodar:
- Cenis, você esta calado a dias.
Ele apenas parou durante algum tempo e depois perseguiu na sua caminhada:
- Eu preciso ao menos saber o que tanto te aflige.
- Pensei que você soubesse.
- Como posso saber, não conquistei o poder de ler mentes ainda.
- Não comece com piadas.
- Desculpa.
Cenis apenas caminhava, sem falar sequer uma palavra. Comia quando tinha comida, sem nunca pedir, e me pedia as coisas quase que mentalmente.
Nove dias se passaram e seu silêncio se quebrou assim que avistamos a colina das nove estátuas:
- Chegamos.
- Chegamos aonde?
- No novo começo ou no fim, depende daquele velho miserável.
- Você esta falando de Minuthus?
- De quem mais seria? Ele já esta usando seus truques – Cenis apontou para um bando de pássaros amarelos que estavam parados no ar, como estátuas grudadas no ar. Ali não havia vento, somente o ar, as folhas das árvores que caiam estavam fixas e duras como pedra no ar.
- Incrível.
- Não é incrível, é uma prova de que ele esta com medo e acha que só com seus truques conseguirá me matar.
Cenis falava de Minuthus como se fosse um singelo feiticeiro, parecendo se esquecer que estava diante do poder de um Deus, não seria eu que lembraria ele, já que corria o risco de ouvir um de seus discursos sobre honra e sobre a ética de um verdadeiro Deus.
Caminhamos dois dias sempre diante da colina das nove estátuas, que ficava cada dia maior, chegando a dar medo quando fitada durante algum tempo corrido.
Quando chegamos aos pés da colina as nuvens começaram a deformar de forma rápida, formando veias que se entrelaçavam no céu. Naquele lugar o tempo era parado e acelerado ao mesmo tempo, deixando a cabeça confusa:
- Com certeza ele já esta a minha espera.
- Você esta certo disso Cenis?
- Mais do que certo. Acho melhor nos separarmos agora Maciel, os tempos podem ficar difíceis e pode haver uma grande tempestade.
- Não cheguei até aqui com você para agora simplesmente me virar de costas e caminhar para algum lugar qualquer.
- Já desconfiava de essa sua atitude.
- Um dia você me salvou, agora é minha vez de provar ser agradecido.
- Você já me provou isso centenas de vezes.
- Certo, então vamos a mais uma prova, para que não haja dúvidas.
Cenis se aproximou de mim e me estendeu os braços, como se pedisse um abraço. Ele nunca havia me mostrado seu lado de compreensão e de sentimentos, mas as duas longas lágrimas que escorriam por seu rosto de barba mal feita provavam que além da coragem e da força, a amizade e a gratidão tinham um grande espaço no seu peito. Logo depois do abraço ele me segurou pelos ombros:
- Obrigado por todos esses anos de companheirismo – eu acho que não chorei por que não consegui entender o que estava acontecendo naquele momento.
- Nunca fiz nada obrigado.
- Vamos em frente.
Marchamos colina a cima, com as cabeças erguidas, e com as palavras apenas em pensamento, tudo que devia ser falado já havia sido e nenhum pensamento ou palpite era cabível a aquela altura.
Chegamos ao topo e fomos recebidos por um senhor de meia idade, com trajes verde claro, um chapéu de abas bem largas e uma espada com a bainha feita de bamboo. O chão era de terra batida, o vento soprava de todos os sentidos, formando uma brisa quente que confortava o corpo, ao horizonte se via uma grande planície e mais ao fundo uma floresta de árvores ainda altas para nossa posição. O clima era pesado, Cenis tomou a frente e parou a uns cinco passos do outro homem:
- Se levante, encare sua morte com um mínimo de honra.
- Você vive falando de honra, ideais, ética e etc ... por que?
- Por que foi uma das milhares de coisas que minha mãe, meu único parente nesse mundo, me ensinou: a ter princípios, coisa que meu suposto pai não tinha.
- Você não entenderia nem um terço da verdade, e certamente não a suportaria também.
- Não me venha com falsas verdades e histórias bem boladas.
- Prometo não tentar mudar suas idéias, já que não pretendo te deixar viver.
- Acho que quem vai morrer aqui não serei eu.
- Não apenas você, por que matarei Maciel também.
- Que audácia falar isso. Não deixarei que nada aconteça a ele.
- Não sabia que estavam casados.
- Cale-se! – Maciel puxou sua espada da bainha. Sua lâmina preta parecia pedir o sangue de Minuthus – Vamos acabar logo com isso, para eu poder ter a certeza que eu mesmo livrei o mundo de sua merda de existência.
- Parece que você esquece quem sou eu. Ou você realmente não sabe quem sou eu e quão forte são meus poderes. Só para sua informação, fui avisado que esse mal deve ser cortado pela raiz, e somente por isso vim até aqui hoje, para poder sobreviver no futuro.
- Você não fala coisa com coisa, e isso me irrita.
- Uma senhora muito velha me contou que você seria de grande risco no futuro, por isso preciso acabar com isso agora, antes que você realmente represente algum problema para mim – Minuthus ergueu as mãos para o céu e uma corrente de vento começou a tomar conta de seu braço, e do vento ele tirou uma espada dourada, com diamantes enfeitando sua lâmina – Vou começar por seu subordinado.
Minuthus sumiu e apareceu atrás de mim, eu escutei um riso abafado e senti sua respiração no meu pescoço, enquanto sentia uma lâmina me atravessando o peito, e saindo ensangüentada na minha frente. Meu corpo caiu como um saco vazio no chão, enquanto eu sentia meu sangue se esvair do meu peito, tingindo o chão ao meu redor de um vermelho forte. Cenis olhou para trás enquanto via meu corpo caindo:
- Maldito filho da puta ! – Cenis avançou na direção do pai com a espada empunhada abaixo da cintura.
- Que audácia – Minuthus se virou de lado enquanto via a lâmina negra passar longe de suas costelas – e que burrice – Minuthus golpeou Cenis a barriga, fazendo-o se afastar alguns metros para trás, e fazendo Cenis cuspir sangue.
- Soca como uma moça – Eu via a cena de lado, com a cabeça relaxando no chão, enquanto Cenis limpava o canto da boca com as costas da mão retirando um pouco de sangue. Minuthus riu do comentário do filho e se posicionou de lado, com uma mão a frente e a espada baixa atrás do corpo.
- Meu filho.
- Não me chame de filho, por que eu tenho apenas uma mãe, e mais nada.
- Vou ter que te explicar como nascem bebês?
- Cala a boca ! – Minuthus riu e deixou Cenis furioso.
Cenis correu com a espada empunhada acima da cabeça e riscou o ar em uma tentativa de acertar o Deus. Minuthus estocou com a espada pelas costas de Cenis e teve a lâmina desviada pela espada do filho:
- Devo admitir que pensei que seria bem mais fácil.
- E eu devo admitir que pensei que seria mais difícil.
- Você não perde uma oportunidade de ficar quieto moleque?
- Não quando estou diante de fazer aquilo que sonhei durante toda minha vida.
- Ridículo.
- Vamos ver quem é ridículo.
O Deus do tempo tinha no rosto uma expressão de uma raiva calma, extremamente controlada. Minha vista estava começando a ficar cansada enquanto eu sentia o sangue parar de sair do meu corpo, minha cabeça insistia em sentir dor e meus ouvidos começaram a fazer um zunido baixo, mas que me deixou incomodado. Cenis e Minuthus continuavam sua luta, com um golpe, um contra golpe e uma pausa para alguma provocação verbal ou gestual :
- Isso esta começando a ficar chato – Minuthus fingiu um bocejo para incomodar Cenis.
- Tem razão – Cenis apoiou a espada no chão – que tal você começa a usar seu verdadeiro poder ? você é capaz de muito mais, eu mesmo já presenciei sua ira.
- Mas não estou nem perto de estar incomodado.
Cenis correu em direção de Minuthus, ergueu a espada a altura da cintura para acertar as costelas de seu pai e teve a espada desviada pela bainha da espada do rival, Minuthus acertou Cenis com as costas da mão e se afastou:
- Ridículo – Minuthus olhou por debaixo de seu chapéu e riu.
O filho segurou a espada do lado do corpo e se aproximou lentamente do pai, Minuthus desviou para o lado oposto da espada e quando foi soquear Cenis pelas costas viu a lâmina negra que pingava sangue vindo na sua direção, sendo estocada para trás. A lâmina entrou quase que toda no abdômen do Deus enquanto seus olhos pareciam se duplicar de tamanho:
- Quem é o ridículo que cai em uma armadilha tão simples como essa?
Minuthus voltou com a sua expressão facial normal e um sorriso se esboçou no canto direito de seus lábios:
- Acho que eu não cai em armadilha alguma – o Deus estendeu os braços para os lados, olhou para cima – Hahahahaha.
Vários fios prateados começaram a se enroscar no ar em volta dos dois, enquanto o tempo voltava atrás, fazendo com que a espada de Cenis saísse do estômago de Minuthus e a ferida se fechasse, como se nada tivesse acontecido, fazendo com que os dois estivessem distantes um do outro :
- Como vê, acho que não cai em armadilha alguma.
- Desgraçado.
Cenis, começando a temer o verdadeiro poder do Deus, avançou para cima do pai com a espada acima da cabeça:
- É inútil tentar Cenis, meu filho.
- EU NÃO SOU SEU FILHO !
Cenis cortou o ar de cima para baixo. Minuthus deu um passo para trás e viu a espada cortar a aba larga de seu chapéu, fazendo com que o cheiro de sangue ficasse perceptível, de tão rente ao seu rosto que a lâmina passara. O chapéu ficou com um corte enorme, e, sem entendermos, Minuthus ficou furioso, fazendo com que seu rosto desse medo, com os olhos de pupilas totalmente pretas:
- Chega ! Eu vou acabar com você agora !
- Pois então tente velho maldito.
Cenis tirou o chapéu e o tocou no chão, longos cabelos brancos tomaram uma forma lisa até o meio das costas, seus olhos ficaram negros da cor do grafite, parecia ter sido possuído pelo próprio mau:
- Será sua última e inútil chance seu fedelho miserável.
Meus olhos começaram a doer mas consegui perceber que, ao nosso redor, a floresta virava pó e outra vegetação tomava o lugar, como se o ciclo da vida e da morte começasse e terminasse em questão de segundos.
Cenis avançou na direção do Deus, gritando de raiva, de esperança e de vários sentimentos ao mesmo tempo. Ele pulou para cima de seu pai, com a espada negra acima da cabeça, seus dedos nunca haviam feito tanta força, e a lâmina produziu um risco no ar, de cor branca reluzente. Minuthus ergueu sua mão em direção do filho, enquanto milhares de fios azuis formavam um casulo ao redor de Cenis, em questão de um segundo, um brilho azul tomou conta do lugar. Cenis apareceu no ar, como se tivesse sessenta anos a mais. Tinha as costas curvadas, várias rugas no rosto, tinha os braços bem mais finos, muitos poucos cabelos na cabeça e seus olhos estavam com pouco brilho. A espada lhe pesou as mãos e ele caiu no chão de costas:
- Isso não é nada comparado ao que eu realmente posso fazer.
Cenis se levantou, fazendo a espada de apoio:
- Eu já esperava por isso. Vindo de você toda covardia pode ser considerada como um grande risco – sua voz estava cansada e muito fraca, enquanto muitas vezes ele tossia, interrompendo suas frases.
- Chega de aulas de ética e moral, já estou cansado de ouvir essas besteiras.
- Mesmo neste estado eu vou conseguir te matar seu maldito filho de uma puta.
- Já te disse que você vai perder, uma grande fonte de conhecimento me disse. Não tente fugir de seu destino.
- Destino que você mesmo escreveu.
- Mais ou menos – Minuthus colocou as duas mãos para a frente e fechou os olhos – Vou por a prova sua honra. Aceite sua morte como um verdadeiro herói, será mais fácil.
Uma grande rajada de vento começou a circular o lugar, fazendo com que não conseguíssemos ver nada além da pequena colina:
- Você é fruto de uma grande piada que não deixarei que tenha um fim.
- É o que vamos ver.
Cenis conseguiu tirar sua espada do chão, fazendo uma tremenda força, e correu o máximo que seu corpo permitia para dar o último golpe que seu corpo daria em Minuthus. A espada negra brilhou intensamente, e um grande feixe de luz negra rasgou o universo, caindo na colina.
Mil sóis sorriam no universo, alimentando a vida de seus dependentes, enquanto dois mil sóis choravam, vertendo o céu de seus dependentes em fogo, queimando tudo que podiam tocar. Um ciclo terminava para dois, e uma grande cicatriz marcada a ferro o rosto de outro.

0 Comments:
Post a Comment
Subscribe to Post Comments [Atom]
<< Home