Saturday, June 30, 2007

A amante que o vento leva.


Durante vinte anos sempre tive ela,
Durante vinte anos sempre tive outras;
Outras milhares que eram frias,
Meus dedos eram frios,
Minha virilha era quente,
Minha consciência era suja;
Hoje apenas fico sentado onde sempre sentei,
O lugar parece morto,
Acho que sempre pareceu,
Eu que sempre estive muito ocupado para perceber,
As árvores nunca me pareceram tão tortas,
Nem as folhas tão secas;
O que antes me faltava,
Faz parte do todo pouco que me sobrou,
Todo pouco que me escorre por entre meus dedos,
Todo pouco que eu perco cada vez mais,
Deixando apenas a minha mais nova amante;
A mais fiél de todas as pragas,
O sentimento que só se tem em português,
A culpa que só se diz em voz alta;
Ruim não é a vergonha de pedir desculpas,
Mas sim perder a oportunidade de se redimir;
Nunca havia percebido que as folhas se quebravam tão fáceis,
E nunca havia percebido como é fácil fazer rimas e metáforas;
Peguei a mania de comparar,
Minha vida é assim,
Uma folha que cai de toda sua fonte de vida,
Se deita em algum lugar frio,
Longe de seu calor,
Se entrega aos pecados da solidão,
Faz o jogo do diabo,
Brinca de ser Deus,
E não pode fazer nada quando alguém a amassa;
Fica partida, contando com a morte,
Pelo menos assim ela tera a oportunidade de ser nada;
Vinte anos,
Durante vinte anos fui feliz,
Fui ....
E sei que esse verbo nunca mais sera conjugado,
Sómente no pretérito,
Perfeito ou imperfeito,
Todos eles apenas lembram que um pode ser pior que o outro;
Maldito seja o que criou o amor,
E maldito seja aquele que ensinou o humano a amar ...

Wednesday, June 13, 2007

O Destino de D. R. Sebastian

Capítulo três: No Cais do porto, as 18:30 (sem atrasos).
Douglas estacionou o carro em frente ao mercado público. Ficou observando o lugar durante um bom tempo, até que achou o pólo branco dos chefões. "Malditos, não posso agir agora....se bem que". Douglas tateou o banco do carona e puxou o carpete, onde ficava o esconderijo de um revólver. "Perfeito. É hoje que vocês morrem seu bando de cretinos".
A noite ja permanecia no céu, alguns ônibus chegavam no terminal enquanto Douglas atravessava a rua correndo discretamente, em direção da passagem subterrânea que levava ao cais. Tudo estava mais pixado, mais bagunçado do que antes. O cais estava em obras. quando saiu havia uma pequena proteção de madeira. O barulho da água dava uma sensação de conforto e alguns carros passavam pelo chão de pedras batidas, fazendo um barulho caracteristico. O pólo estava a uns duzentos metros a sua direita. Douglas colocou o revólver na cintura e começou a caminhar. "Parabéns Douglas, você começou a caminhar sem antes bolar algun plano. Como você é genial Douglas. Pelo menos agora preciso contar com a sorte de eles não me revistarem".
O caminho foi maçante. Douglas sentia o cheiro de tabaco de longe. O chefão estava sentado no capo do carro, com um terno branco e com um charuto na boca, cercad por quatro seguranças, todos pouco afastados. "Quem sabe faze-lo de refém?". O homem virou a cabeça e, ao avistar Douglas, ficou ereto e com os braços esticados:
- Douglas meu irmão - sua voz era grossa e tinha um sotaque que Douglas nunca soube dizer qual era, mas muito parecia com o sotaque paulista.
- Como vai sr. Robson?
- Sem "sr", você sabe que isso me da nos nervos.
- Claro, me desculpe.
Robson abraçou Douglas e tirou a arma de sua cintura:
- Sabia que você vinha armado.
Robson abriu o tambor e tirou as seis balas, depois devolveu a arma a Douglas:
- Bom, vejo que você esta seguindo as instruções da agenda, muito bem. Continue assim, pelo menos por enquanto. Talvez comece a vir algumas lembranças em sua memória, bom, tudo que você precisa saber vai aparecer, se é que ja nao apareceram.
- O que eu preciso fazer?
- Bom, pensei em enrolar um pouco, mas parece que até você esta ansioso - Robson bateu no capo do carro e um segurança desceu, com um grande envelope de papel celofane - Aqui nesta pasta - o segurança entregou o envelope a Douglas e voltou para o carro - esta tudo que você precisa saber sobre um homem que você precisa matar para mim.
- Certo.
- Por enquanto é isso. Basta você seguir o que diz na agenda e fazer o que eu estou te pedindo que você terá a recompensa.
"Seu porco nojento. Eu vou te matar na primeira oportunidade que você me der seu cretino filho de uma puta"
- Até mais - Robson apertou a mão de Douglas e entrou no carro, que saiu logo em seguida.
"Maldito filho de uma figa. Você me paga". Douglas voltou para o carro, abriu a agenda e viu dois dias depois: Gasômetro, 18:30. "Sua hora esta chegando cretino". Douglas rasgou o resto da agenda depois do próximo encontro. "Ou você morre ou eu morro. E creio que será você que vai tombar". Douglas deu a partida, comprou munição com um pivete na redenção e foi para o seu apartamento.
A luz deixou claro que ninguém visitava o lugar a um certo tempo, por causa da poeira. O apartamento tinha um leve cheiro de mofo e de fumaça de cigarro. As paredes tinham cores claras e os móveis de design moderno, com bastante curvas, que acabava caindo muito bem no espaço limitado que tinha. Douglas seguil para o banheiro, onde tomou um banho, depois tomou um iogurte que havia ficado na geladeira. Ao chegar no quarto viu a tradução que fazia de um escritor novo na frança, que começou a fazer sucesso."Preciso ir a um super-mercado antes que eu passar fome e preciso terminar esse trabalho".
Douglas tentou traduzir um pouco e quando viu que estava com a cabeça cheia de pensamentos fora do trabalho, fechou o livro e foi dormir, sabendo que em dois dias sua vida seria totalmente resolvida.

Sunday, June 03, 2007

O destino de D. R. Sebastian

Capítulo dois: uma agenda, uma chave e um mp4.

O chão ja era claro, com azulejos branco meio aspero. A parede pintada de bege escuro. Na sua frente uma porta de madeira esculpida em madeira crua com uma maçaneta dourada. Seus olhos ofuscaram aos primeiros momentos com a pouca claridade que habitava o lugar, vindo pelas beiras da porta. Suas roupas estavam limpas, assim como seu corpo. Usava um terno preto, com sapatos recém engraxados. Ele se levantou e vagou pelo lugar, ficando de frente para um espelho, logo acima de uma pequena escrivaninha de mogno. Em cima da madeira uma chave, uma agenda e um mp4 player. No espelho um rosto que começou a lhe ficar cada vez mais familiar a cada instante que ele observava. Recortes de memórias pincelavam seu cérebro, formando eventos passados a algum tempo. Uma mulher linda com uma criança no colo. Um prédio de muitos andares vista do térreo, e uma pessoa caindo. Uma mulher jovem fazendo sexo oral por debaixo de uma mesa. Um espelho de corpo mostrando o que o espelho na sua frente mostrava. Um tiroteio em uma avenida. A mulher com um pequeno furo na testa, e o bebê do lado, aos prantos.
Nomes, endereços, datas, lembranças boas, ruins, desenhos, discuções, medidas, tipo sangüíneo. Tudo voltando lentamente a sua memória. Tudo fazendo com que ele se lembrasse de quem era. Douglas Rodrigues Sebastian, ex-professor de francês na universidade federal do Rio Grande do Sul e tradutor de obras literárias francesas. 1,79, 87kg, cabelo curto, preto e ondulado, olhos meio puxados, nariz maior que o normal, a cicatriz na sombrancelha direita, rosto grande, de queixo quadrado. Pai de um menino e recém viúvo. Membro da associação de ciências e cultura da faculdade, pedófilo, chantagista, masoquista e sem caráter, por debaixo de uma máscara de moralidade intacta, salvo alguns deslizes que foram contornados antes que se tornassem um risco a sua imagem.
Douglas pegou a agenda e a folheou. Achou horas marcadas em diversos lugares, mas algumas em especial, com um tempo de dois dias entre uma e outra, contendo apenas "apresentação de protocólo", sempre as dezenove horas.
Um mp4 com textos e aulas de meses atrás, fotos de pornografia infantil, videos pornôs, algumas músicas clássicas e conversas gravadas que ele não quis escutar antes de sair dali.
A porta fechada. Ele olhou para a mesinha e apanhou a chave, que abriu a porta. Ficou diante de uma sala bem iluminada, que doeu nos olhos. Haviam móveis antigos e bem conservados, as janelas abertas com as cortinas de seda deslizando no embalo triste da brisa quente que entrava. Na rua um grande campo verde e extendia no horizonte, no meio uma trilha de terra batida, que levava aonde Douglas não sabia. A casa havia mais uma cozinha e um quarto, todos decorados de extremo bom gosto e com móveis antigos em pleno estado de conservação.
Na rua um astra prata tinha a porta do motorista aberta. Douglas sentou no banco e percebeu que o carro era dele, se lembrando de quando comprou o carro. No porta luvas os documentos do carro e uma carta:

A Douglas Sebastian

Esperamos que o senhor saiba aproveitar e obedecer bem as novas normas. O senhor não deve se lembrar do que aconteceu nos últimos dois meses, por isso vamos a uma pequena recaptulação: o senhor ficou viúvo por causa de um assalto a mão armada em sua casa e decidiu nos ligar. Sua vida toda foi queimada e todas provas do que o senhor ja fez foram devidamente apagadas da face da terra. Sigua as ordens que enviaremos a cada dois dias na "apresentação de protocólo". Não crie élos com ninguém e tente passar despercebido na multidão, por que matamos apenas as pessoas que te faziam correr o risco de ir preso, e não todos os que te conheciam. Faça o favor de não estragar tudo novamente, e nao se esqueça que o mundo é muito mais que suas idéias. O preço que você pagou por essa nova chance foi alto, e saiba que não estaremos do seu lado afim de ouvir outra proposta.
Douglas deu a partida, engatou a primeira e seguil pela trilha de terra batida. A poeira foi cobrindo o lugar por onde o carro passava. "Que diabos, deve ter acontecido de novo. Quero ver eles me impedirem novamente." A auto-estrada estava praticamente vazia, parecia fim de tarde. Atrás de si ele viu o portão da fazenda fechar e a terra ser substituida pelo asfalto úmido. A freeway parecia mais curta, e os batimentos do coração de Douglas mais acelerados. "Malditos, vocês vão me pagar seus malditos desgraçados", ele passou a mão pela nuca e sentiu a pequena cicatriz, "Vocês fizeram de novo, bom é que vocês não sabem que eu acabo me lembrando. Vou recuperar o que vocês me deram e ainda vou servir vocês como vocês bem entendem. Dois coelhos em uma só cajadada ... perfeito". O carro acelerou deliberadamente e Douglas seguil em direção ao centro, direto ao cais do porto, como ordenava a agenda.

Saturday, June 02, 2007

O destino de D. R. Sebastian

Capítulo um: Gritos e dor.
A cabeça latejava, enquanto seus olhos vendados nada enxergavam. Na boca um pano de aspecto áspero com gosto de sangue. Um cheiro de cabelo queimado impregnava o lugar que permanecia na penumbra. "onde estou?" pensou. Um homem de vinte e tantos anos, com a barba a fazer, cabelos curtos negros agora molhados. Pés e mãos amarradas em um só nó, com a cabeça pesando para frente. "quem sou eu?". Ao seu redor o feixe de luz que banhava a sala vinda de uma telha transparente mostrava um chão imundo, com fezes e diversos insetos, que esperavam o homem morrer para tomar conta de sua carne. O breu tomava conta de seu redor, junto com o forte cheiro de cabelo queimado. "quem sou eu? onde eu estou? o que estou fazendo aqui deste jeito?". Perguntas sem respostas que fazam questão de ficar martelando a cabeça do homem.
Uma porta de ferro pesado sendo aberta, em um breu, onde tudo não passava de trevas. Quatro passos largos e calmos. Em direção, chegando perto do homem. Os passos param, os passos repousam na frente do quase morto. Um estalar de dedos e dois braços erguendo o homem mole, sem forças. Sem nem ao menos poder relutar contra o que sofria:
- Tirem a mordaça e os nós - Uma voz idosa falavaquando terminou de tragar um cigarro. O barulho do papel queimando parecia ensurdecedor nos ouvidos do homem.
As quatro mãos desfizeram o que o prendiam, deixando apenas a venda grossa em seus olhos:
- Não recomendo que você tire as vendas agora. Esta de dia e você esta a um bom tempo sem abrir os olhos. Pode acabar ficando cego. Fique mais um tempo aqui e depois va.
- O que - uma voz rouca insistia em aparecer - o que vocês fizeram comigo?
- Não fizemos nada demais. Apenas deixamos com que você tenha uma outra oportunidade de brincar - o barulho que a voz do homem fez em certo momento fez a cabeça do moribundo tremer, como se fosse atingid por um martelo.
- Fale baixo merda - o seu grito doeu ainda mais seus ouvidos.
- Sssssht. Você pode se machucar sério.
- Aaaaaargh! - seu grito de dor apenas causou mais dor.
Sua cabeça latejava cada vez mais, como se uma grande frequência vagasse por seu crânio. Seus olhos começaram a doer e sua cabeça toda parecia a ponto de explodir.
Os barulhos começaram a diminuir. Pareciam bem mais lentos e melancólicos. O som da tragada parecia eterna. Ele sentia seu mundo o deixando enjoado. Ajoelhado ele sentia o chão girar. Sentindo apenas o frio do concreto e tudo que ele parecia entender sumir de sua mente vagarosamente. Seus últimos momentos de uma dor intensa antes de tudo ficar calmo e escuro.