Sunday, June 03, 2007

O destino de D. R. Sebastian

Capítulo dois: uma agenda, uma chave e um mp4.

O chão ja era claro, com azulejos branco meio aspero. A parede pintada de bege escuro. Na sua frente uma porta de madeira esculpida em madeira crua com uma maçaneta dourada. Seus olhos ofuscaram aos primeiros momentos com a pouca claridade que habitava o lugar, vindo pelas beiras da porta. Suas roupas estavam limpas, assim como seu corpo. Usava um terno preto, com sapatos recém engraxados. Ele se levantou e vagou pelo lugar, ficando de frente para um espelho, logo acima de uma pequena escrivaninha de mogno. Em cima da madeira uma chave, uma agenda e um mp4 player. No espelho um rosto que começou a lhe ficar cada vez mais familiar a cada instante que ele observava. Recortes de memórias pincelavam seu cérebro, formando eventos passados a algum tempo. Uma mulher linda com uma criança no colo. Um prédio de muitos andares vista do térreo, e uma pessoa caindo. Uma mulher jovem fazendo sexo oral por debaixo de uma mesa. Um espelho de corpo mostrando o que o espelho na sua frente mostrava. Um tiroteio em uma avenida. A mulher com um pequeno furo na testa, e o bebê do lado, aos prantos.
Nomes, endereços, datas, lembranças boas, ruins, desenhos, discuções, medidas, tipo sangüíneo. Tudo voltando lentamente a sua memória. Tudo fazendo com que ele se lembrasse de quem era. Douglas Rodrigues Sebastian, ex-professor de francês na universidade federal do Rio Grande do Sul e tradutor de obras literárias francesas. 1,79, 87kg, cabelo curto, preto e ondulado, olhos meio puxados, nariz maior que o normal, a cicatriz na sombrancelha direita, rosto grande, de queixo quadrado. Pai de um menino e recém viúvo. Membro da associação de ciências e cultura da faculdade, pedófilo, chantagista, masoquista e sem caráter, por debaixo de uma máscara de moralidade intacta, salvo alguns deslizes que foram contornados antes que se tornassem um risco a sua imagem.
Douglas pegou a agenda e a folheou. Achou horas marcadas em diversos lugares, mas algumas em especial, com um tempo de dois dias entre uma e outra, contendo apenas "apresentação de protocólo", sempre as dezenove horas.
Um mp4 com textos e aulas de meses atrás, fotos de pornografia infantil, videos pornôs, algumas músicas clássicas e conversas gravadas que ele não quis escutar antes de sair dali.
A porta fechada. Ele olhou para a mesinha e apanhou a chave, que abriu a porta. Ficou diante de uma sala bem iluminada, que doeu nos olhos. Haviam móveis antigos e bem conservados, as janelas abertas com as cortinas de seda deslizando no embalo triste da brisa quente que entrava. Na rua um grande campo verde e extendia no horizonte, no meio uma trilha de terra batida, que levava aonde Douglas não sabia. A casa havia mais uma cozinha e um quarto, todos decorados de extremo bom gosto e com móveis antigos em pleno estado de conservação.
Na rua um astra prata tinha a porta do motorista aberta. Douglas sentou no banco e percebeu que o carro era dele, se lembrando de quando comprou o carro. No porta luvas os documentos do carro e uma carta:

A Douglas Sebastian

Esperamos que o senhor saiba aproveitar e obedecer bem as novas normas. O senhor não deve se lembrar do que aconteceu nos últimos dois meses, por isso vamos a uma pequena recaptulação: o senhor ficou viúvo por causa de um assalto a mão armada em sua casa e decidiu nos ligar. Sua vida toda foi queimada e todas provas do que o senhor ja fez foram devidamente apagadas da face da terra. Sigua as ordens que enviaremos a cada dois dias na "apresentação de protocólo". Não crie élos com ninguém e tente passar despercebido na multidão, por que matamos apenas as pessoas que te faziam correr o risco de ir preso, e não todos os que te conheciam. Faça o favor de não estragar tudo novamente, e nao se esqueça que o mundo é muito mais que suas idéias. O preço que você pagou por essa nova chance foi alto, e saiba que não estaremos do seu lado afim de ouvir outra proposta.
Douglas deu a partida, engatou a primeira e seguil pela trilha de terra batida. A poeira foi cobrindo o lugar por onde o carro passava. "Que diabos, deve ter acontecido de novo. Quero ver eles me impedirem novamente." A auto-estrada estava praticamente vazia, parecia fim de tarde. Atrás de si ele viu o portão da fazenda fechar e a terra ser substituida pelo asfalto úmido. A freeway parecia mais curta, e os batimentos do coração de Douglas mais acelerados. "Malditos, vocês vão me pagar seus malditos desgraçados", ele passou a mão pela nuca e sentiu a pequena cicatriz, "Vocês fizeram de novo, bom é que vocês não sabem que eu acabo me lembrando. Vou recuperar o que vocês me deram e ainda vou servir vocês como vocês bem entendem. Dois coelhos em uma só cajadada ... perfeito". O carro acelerou deliberadamente e Douglas seguil em direção ao centro, direto ao cais do porto, como ordenava a agenda.

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