Friday, March 07, 2008

Introdução de Maria de papel

Bom, eu escrevi esse conto com base apenas em uma pessoa que fica loucamente apaixonada (no sentido literário da questão) por um personagem. E a primeira coisa que pensei foi o título, pois o achei muito interessante ... enfim ...

eu recomendo que vocês leiam de baixo para cima, ou seja: primeiro leiam "algumas horas antes do suicídio", depois leiam "alguns dias antes do suicídio", depois "algumas semanas antes do suicídio" e depois leiam "o suicídio" ... se vocês lêrem na ordem certa algumas coisas vão ficar confusas, por mais que eu tenha tentado criar um texto que, independente da ordem, ele faça o mesmo sentido ... mas mesmo assim, sigam meu conselho ... enfim : boa leitura e me desculpem pelos erros de português, ou me desculpem pela minha preguiça de corrigir o texto ...

Maria de papel

O suicídio

Eu estava apenas fumando la em cima, tinha apenas saído para tragar um cigarro, olhar a cidade e logo depois iría voltar para meu canto, assistir algum filme que estivesse passando e iria dormir em paz, descançar para outro dia de trabalho. Mas aquela noite foi diferente. Inclusive, a noite mais diferente de toda a minha vida.

O esqueiro recém tinha feito seu trabalho, eu não havia nem posto o cigarro na boca, quando a porta atrás de mim bateu com força, generosidade do artista, do palhaço de toda a história. Ele usava uma calça jeans suja, desgasta nos calcanhares, uma camisa que deveria ser seu pijama. Seus olhos nunca estiveram tão fundos ... acho que os olhos de nenhum ser humano estivera tão fundos. Ele bufava, e se assustou ao me ver ali:

- Quem é você? – ele estava parado, sem mecher um único músculo.

- Sou seu vizinho – dei uma tragada no cigarro, me virei e extendi a mão – moro no 502.

Ele olhou minha mão, limpou a sua na camisa e deu um aperto amigável, de uma maneira que deixou bem claro seu desespero:

- O que houve? – para mim aquilo era uma pergunta retória.

- Perdi quem amava – ele me seguiu até o para-peito e se debruçou.

- Como?

- Ela morreu.

- Meus pêsames ...

- Não não, mas isso não é o fim – seus olhos examinavam o quão alto era ver a rua do décimo terceiro andar.

- Também penso assim ... por mais que alguma pessoa amada se vá sempre fica no coração, na memória.

- Sim sim, tivemos muitos momentos felizes juntos – ele ficava na ponta dos pés para enxergar melhor a rua, e depois voltava ao normal, para logo depois ficar na ponta dos pés novamente.

- E ... me desculpe a indelicadeza ... o que aconteçeu com sua namorada.

- Na verdade éramos casados ... e me lembro do nosso casamento.

- A sim! O.K. me desculpe – nunca havia visto alguém tão perturbado, alguém tão fora de si.

- Quanto tempo deve levar para chegar la embaixo?

- Não muito, acho que dez, ou quinze segundos.

- Sera verdade que morremos por causa da falta de ar antes de atingirmos o chão?

- Não sei - dei outra tragada, e previ o final da noite.

- Você já ficou sem chão na vida? Você já sentiu como se nada mais fizesse sentido?

- Algumas vezes ... principalmente quando perdemos alguém muito importante.

- Tenho vontade de estar com ela.

- A vida é assim rapaz, você ainda é jóvem. Precisa se acostumar com a idéia de perder alguém.

- Não preciso não, existem outros meios. – o artista ficou de pé no para-peito do prédio.

- Você tem certeza que é isso que quer?

- Não ... mas preciso de uma outra forma de ver Maria. Se não morrer aqui vou morrer logo em seguida de solidão. – Dentro de minha mente minha boca gargalhava, e começava a ficar com vontade de ver um corpo la em baixo.

Ele começou a caminhar, mostrando uma enorme habilidade em equilíbrio. E deixando cada vez mais claro para mim que ele iria pula, que aquilo não era cena:

- Sabe, a noite é longa, mas se você quiser alcança-la você precisa ir logo. – eu sabia que iria acontecer, mas vale um esforço para ajudar a ser mais rápido.

- Você tem razão. Ela pode estar em perigos sem mim ... pode estar sendo observada ou paquerada por estranhos ... afinal sua beleza era invejável.

- Mande um abraço para ela por mim. – dei um sorriso e apertei os olhos.

Quando abri os olhos vi a camisa dançando no ar, os cabelos iam na direção contrária do vento, e já não havia volta. Sua cara tinha um ar de susto, e logo depois um grande sorriso se estampou no seu rosto, seguido de duas lágrimas de felicidade, por estar indo ao encontro de sua amada ... era o final feliz que todas as pessoas sonhavam em ter, era um salto para algo muito maior e mais alto do que uma queda de mais ou menos trinta e nove metros ... para ele seria como estar sempre com Maria, porém agora não iria mais precisar de seringas, e com mais uma vantagem: aquele sonho não iria mais acabar.

“boom! bye bye artista”

Maria de papel

Algumas semanas antes do suicídio

As aulas da faculdade começavam a se tornar cada vez mais entediantes, e Diego sabia que não era aquilo que queria da vida. Contar não era para ele, somar e diminuir não fazia parte de seu mundo. Ele havia nascido para fazer arte, mas ninguém entendia.

A algumas semanas atrás ele entrou no apartamento e na entrada havia um envelope de papel pardo, sem remetente e destinado a ele mesmo. Não sabia que aquilo iria destruí-lo, e então abriu ... e a partir dali sua vida seria uma bomba relógio, com ponteiros bem apressados, e então “boom ! bye bye artista”.

Sua vida era um saco, ele sabia disso, eu sabia disso, e acho que até sua família sabia disso. Ele fazia o que não gostava, cumpria horários que não gostava, comia o que não gostava e estava longe de quem gostava.

Ele chegava sempre as onze e meia da noite, desligava a luz da sala a meia-noite, quando terminava de jantar e ia tomar banho, depois ficava até meia-noite e meia estudando, raros dias que estudava mais, e raros dias que estudava menos. As vezes assistia algum filme pornô, se masturbava e ia dormir, as vezes ia dormir sem nem ligar a televisão, e aos fins de semana estudava até tarde, a base de remédios e cafeína. E assim foi sua vida durante dois anos inteiros ... ele foi muito forte para não ter jogado a toalha antes ... foi mesmo.

Enfim conheçeu Maria, e eu não sabia que algumas poucas palavras e rabiscos poderiam mudar tanto uma pessoa. Uma pessoa desesperada. E ele acabou vendo sua nova vida, sua Maria ... e sabia que Maria era só sua, e foi a única coisa na vida que foi apenas dele. Os horários passaram a ser confusos e sem exatidão, suas aulas passaram a ser cada vez mais raras e seus cadernos eram nada mais além folhas com rabiscos e poemas para sua amada. Enfim sua vida tinha graça. Enfim a rotina era coisa do passado, e foi assim que ele quis ... foi assim que ele decidiu que seria. Ninguém pode dizer que ele não tinha razão, ou que o que fez foi burrice. Foi apenas uma libertação para sua própria mente, finalmente ele fazia o que queria, quando bem entendesse. Não é isso que todos nós queremos?

Maria de papel

Alguns dias antes do suicídio

Diego andava na rua de cabeça baixa, seus cabelos sem corte caiam no rosto, escondendo suas olheiras e seus olhos intricados. Tinha as mãos no bolso, e em um deles segurava um pequeno pacote de plástico com heroína. Sabia que Maria o estaria esperando quando chegasse em casa, e então começou a correr.

Malditas chaves, eram tantas. Diego abriu a porta, e, nos seus pés, um envelope de papel pardo endereçado a ele, junto de algumas outras correspondências, que foram deixadas ali, no chão. Ele queria apenas abrir o envelope e ler Maria, sentir Maria, cheirar Maria. O envelope foi atirado no chão, junto com os outros, enquanto Diego lia seu vício diário, se preparando para ir ao próximo.

Maria estivera linda, como de costume. Linda em tudo, provando mais uma vez ser perfeita. À Diego restava se sustentar com doses diárias de sua amada, escritas ou desenhadas em algumas folhas A4, e depois passava resto do tempo em algum lugar que nem ele sabia onde ficava, mas sabia que Maria estava la, e isso já bastava. Então esquentava a colher, pegava o líquido com uma seringa e depois era só a realidade que ele gostava de viver, se livrando de suas contas atrasadas, de seus estudos obrigados, de sua falência como ser-humano e de seu apartamento que foi quase todo barganhado por mais alguns momentos junto de sua Maria.

Maria de papel

Alguns horas antes do suicídio

E tic, e tac, e tic, e tac ... as horas ião passando tão lentas sem Maria ...

E tac, e tic, e tac, e tic ... aquela agonia, a que horas ela chegaria? ...

A campainha estaria estragada? O porteiro havia saído? Mas por que agora?

No chão do pequeno apartamento, envelopes por cima de envelopes de papel pardo abertos. O que era um sofá havia se tornado uma cama, que fora vendia para manter os sonhos com Maria. As paredes todas pintadas, obra de um artista fabuloso, agora jogado no mais fundo dos poços. Algumas gravuras, alguns adesivos, o azul antigo da tinta dava lugar a pixações, desenhos feitos de grafite ou carvão.

Na geladeira o leite estava azedo, as frutas estragadas e as validades quase todas vencidas. Nos armários alguns pacotes de suco em pó, ainda alguns quilos de açucar e o resto todo de teias de aranha. Na pia algumas louças quebradas, e algumas raras inteiras. Mas o que podia ser mais importante que Maria? Nada ... nada além de Maria, e Maria e mais Maria.

No pequeno banheiro estava o artista, encolhido por entre o vaso sanitário e o box do chuveiro. A cabeça pendia para trás, com os olhos meio-abertos, como se sonhasse acordado. E sonhava. Uma seringa caiu no chão, e a borracha desprendia do braço.

A campainha tocou diversas vezes, mas o artista não podia escutar, e nem gostaria, já que agora estava com Maria ... Maria, doce Maria, Maria horas feita de papel, mas agora estava ali ... na sua frente, usando aquela sua calça jeans e seu blusão de lã azul por cima de uma camiseta branca. Ela tinha sua mão extendida, como se para amparo, e sempre estivera, sempre preocupada com o artista, sempre cuidando de seu sono, sempre zelando pela sua vida.