Maria de papel
Alguns horas antes do suicídio
E tic, e tac, e tic, e tac ... as horas ião passando tão lentas sem Maria ...
E tac, e tic, e tac, e tic ... aquela agonia, a que horas ela chegaria? ...
A campainha estaria estragada? O porteiro havia saído? Mas por que agora?
No chão do pequeno apartamento, envelopes por cima de envelopes de papel pardo abertos. O que era um sofá havia se tornado uma cama, que fora vendia para manter os sonhos com Maria. As paredes todas pintadas, obra de um artista fabuloso, agora jogado no mais fundo dos poços. Algumas gravuras, alguns adesivos, o azul antigo da tinta dava lugar a pixações, desenhos feitos de grafite ou carvão.
Na geladeira o leite estava azedo, as frutas estragadas e as validades quase todas vencidas. Nos armários alguns pacotes de suco em pó, ainda alguns quilos de açucar e o resto todo de teias de aranha. Na pia algumas louças quebradas, e algumas raras inteiras. Mas o que podia ser mais importante que Maria? Nada ... nada além de Maria, e Maria e mais Maria.
No pequeno banheiro estava o artista, encolhido por entre o vaso sanitário e o box do chuveiro. A cabeça pendia para trás, com os olhos meio-abertos, como se sonhasse acordado. E sonhava. Uma seringa caiu no chão, e a borracha desprendia do braço.
A campainha tocou diversas vezes, mas o artista não podia escutar, e nem gostaria, já que agora estava com Maria ... Maria, doce Maria, Maria horas feita de papel, mas agora estava ali ... na sua frente, usando aquela sua calça jeans e seu blusão de lã azul por cima de uma camiseta branca. Ela tinha sua mão extendida, como se para amparo, e sempre estivera, sempre preocupada com o artista, sempre cuidando de seu sono, sempre zelando pela sua vida.

1 Comments:
Eu li e gostei do que li, seu Bruno!!!! Parabéns pela tua arte na escrita é tão boa quanto tua arte visual!!! abração amigooooooo
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