Maria de papel
Algumas semanas antes do suicídio
As aulas da faculdade começavam a se tornar cada vez mais entediantes, e Diego sabia que não era aquilo que queria da vida. Contar não era para ele, somar e diminuir não fazia parte de seu mundo. Ele havia nascido para fazer arte, mas ninguém entendia.
A algumas semanas atrás ele entrou no apartamento e na entrada havia um envelope de papel pardo, sem remetente e destinado a ele mesmo. Não sabia que aquilo iria destruí-lo, e então abriu ... e a partir dali sua vida seria uma bomba relógio, com ponteiros bem apressados, e então “boom ! bye bye artista”.
Sua vida era um saco, ele sabia disso, eu sabia disso, e acho que até sua família sabia disso. Ele fazia o que não gostava, cumpria horários que não gostava, comia o que não gostava e estava longe de quem gostava.
Ele chegava sempre as onze e meia da noite, desligava a luz da sala a meia-noite, quando terminava de jantar e ia tomar banho, depois ficava até meia-noite e meia estudando, raros dias que estudava mais, e raros dias que estudava menos. As vezes assistia algum filme pornô, se masturbava e ia dormir, as vezes ia dormir sem nem ligar a televisão, e aos fins de semana estudava até tarde, a base de remédios e cafeína. E assim foi sua vida durante dois anos inteiros ... ele foi muito forte para não ter jogado a toalha antes ... foi mesmo.
Enfim conheçeu Maria, e eu não sabia que algumas poucas palavras e rabiscos poderiam mudar tanto uma pessoa. Uma pessoa desesperada. E ele acabou vendo sua nova vida, sua Maria ... e sabia que Maria era só sua, e foi a única coisa na vida que foi apenas dele. Os horários passaram a ser confusos e sem exatidão, suas aulas passaram a ser cada vez mais raras e seus cadernos eram nada mais além folhas com rabiscos e poemas para sua amada. Enfim sua vida tinha graça. Enfim a rotina era coisa do passado, e foi assim que ele quis ... foi assim que ele decidiu que seria. Ninguém pode dizer que ele não tinha razão, ou que o que fez foi burrice. Foi apenas uma libertação para sua própria mente, finalmente ele fazia o que queria, quando bem entendesse. Não é isso que todos nós queremos?

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