Maria de papel
Alguns dias antes do suicídio
Diego andava na rua de cabeça baixa, seus cabelos sem corte caiam no rosto, escondendo suas olheiras e seus olhos intricados. Tinha as mãos no bolso, e em um deles segurava um pequeno pacote de plástico com heroína. Sabia que Maria o estaria esperando quando chegasse em casa, e então começou a correr.
Malditas chaves, eram tantas. Diego abriu a porta, e, nos seus pés, um envelope de papel pardo endereçado a ele, junto de algumas outras correspondências, que foram deixadas ali, no chão. Ele queria apenas abrir o envelope e ler Maria, sentir Maria, cheirar Maria. O envelope foi atirado no chão, junto com os outros, enquanto Diego lia seu vício diário, se preparando para ir ao próximo.
Maria estivera linda, como de costume. Linda em tudo, provando mais uma vez ser perfeita. À Diego restava se sustentar com doses diárias de sua amada, escritas ou desenhadas em algumas folhas A4, e depois passava resto do tempo em algum lugar que nem ele sabia onde ficava, mas sabia que Maria estava la, e isso já bastava. Então esquentava a colher, pegava o líquido com uma seringa e depois era só a realidade que ele gostava de viver, se livrando de suas contas atrasadas, de seus estudos obrigados, de sua falência como ser-humano e de seu apartamento que foi quase todo barganhado por mais alguns momentos junto de sua Maria.

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