Saída de emergência
O caminho que se fazia até meu quarto era simples: se entrava pelos fundos, passava por um corredor largo, que era a lavanderia, dez ou doze passos para passar pela cozinha, que minha mãe fazia questão de deixar sempre impecável, a esquerda estava a escada, e embaixo dela o armário com meus brinquedos velhos. Subindo a escada a terceira e última porta do corredor, logo depois dos quartos dos meus pais, e um pouco depois do banheiro. Na minha casa havia uma saída que meu pai chamava de “saída de emergência”, era uma pequena (tão pequena que somente eu passava por ela) portinhola que ficava embaixo da poltrona verde da sala, no assoalho, e dava para o verdadeiro chão da minha casa, entre eles um pequeno espaço, onde eu poderia ficar deitado, ou, até algum tempo atrás, acocado. Eu nunca havia usado aquele lugar mais de duas ou três vezes, até que comecei a usar mais e mais, quando minha mãe mandava eu ia, e ela sempre deixava uma pequena cesta cheia de pão doce, balas, duas latas de refrigerantes, um cobertor no inverno, e um travisseiro. O que eu achava só um pouco estranho é que, no dia seguinte, minha mãe sempre tinha hematomas no corpo, machucados no rosto, e guarda até hoje uma cicatriz enorme na testa ... e é por causa desta cicatriz que, quando eu começei a entender as coisas, eu tive de tomar uma decisão que, para mim, foi bem fácil.
Meu pai era um cara ocupado, vivia viajando, e ficava em casa uns dez dias por mês. Ele tinha um cavanhaque ruivo e expesso, a respiração dele era mais doce do que a da minha mãe, e eu adorava dormir no ombro dele, adorava matar a saudade quando ele estava conosco, e ele também adorava matar a saudade comigo, tanto que nos dias que ele estava em casa eu não ia nem à escola, orden dele. Eu acordava cedo, o acordava com o café pronto, depois saíamos para fazer as compras do almoço, voltávamos para brincar e jogar video-game. À tarde dormíamos depois do meio-dia, brincávamos durante toda a tarde e eram os únicos dias que eu só dormia depois das dez. Meu pai era meu herói, meu pai era o pilar da minha vida ... meu pai era tudo, e agora não é mais nada.
