O suicídio
Eu estava apenas fumando la em cima, tinha apenas saído para tragar um cigarro, olhar a cidade e logo depois iría voltar para meu canto, assistir algum filme que estivesse passando e iria dormir em paz, descançar para outro dia de trabalho. Mas aquela noite foi diferente. Inclusive, a noite mais diferente de toda a minha vida.
O esqueiro recém tinha feito seu trabalho, eu não havia nem posto o cigarro na boca, quando a porta atrás de mim bateu com força, generosidade do artista, do palhaço de toda a história. Ele usava uma calça jeans suja, desgasta nos calcanhares, uma camisa que deveria ser seu pijama. Seus olhos nunca estiveram tão fundos ... acho que os olhos de nenhum ser humano estivera tão fundos. Ele bufava, e se assustou ao me ver ali:
- Quem é você? – ele estava parado, sem mecher um único músculo.
- Sou seu vizinho – dei uma tragada no cigarro, me virei e extendi a mão – moro no 502.
Ele olhou minha mão, limpou a sua na camisa e deu um aperto amigável, de uma maneira que deixou bem claro seu desespero:
- O que houve? – para mim aquilo era uma pergunta retória.
- Perdi quem amava – ele me seguiu até o para-peito e se debruçou.
- Como?
- Ela morreu.
- Meus pêsames ...
- Não não, mas isso não é o fim – seus olhos examinavam o quão alto era ver a rua do décimo terceiro andar.
- Também penso assim ... por mais que alguma pessoa amada se vá sempre fica no coração, na memória.
- Sim sim, tivemos muitos momentos felizes juntos – ele ficava na ponta dos pés para enxergar melhor a rua, e depois voltava ao normal, para logo depois ficar na ponta dos pés novamente.
- E ... me desculpe a indelicadeza ... o que aconteçeu com sua namorada.
- Na verdade éramos casados ... e me lembro do nosso casamento.
- A sim! O.K. me desculpe – nunca havia visto alguém tão perturbado, alguém tão fora de si.
- Quanto tempo deve levar para chegar la embaixo?
- Não muito, acho que dez, ou quinze segundos.
- Sera verdade que morremos por causa da falta de ar antes de atingirmos o chão?
- Não sei - dei outra tragada, e previ o final da noite.
- Você já ficou sem chão na vida? Você já sentiu como se nada mais fizesse sentido?
- Algumas vezes ... principalmente quando perdemos alguém muito importante.
- Tenho vontade de estar com ela.
- A vida é assim rapaz, você ainda é jóvem. Precisa se acostumar com a idéia de perder alguém.
- Não preciso não, existem outros meios. – o artista ficou de pé no para-peito do prédio.
- Você tem certeza que é isso que quer?
- Não ... mas preciso de uma outra forma de ver Maria. Se não morrer aqui vou morrer logo em seguida de solidão. – Dentro de minha mente minha boca gargalhava, e começava a ficar com vontade de ver um corpo la em baixo.
Ele começou a caminhar, mostrando uma enorme habilidade em equilíbrio. E deixando cada vez mais claro para mim que ele iria pula, que aquilo não era cena:
- Sabe, a noite é longa, mas se você quiser alcança-la você precisa ir logo. – eu sabia que iria acontecer, mas vale um esforço para ajudar a ser mais rápido.
- Você tem razão. Ela pode estar em perigos sem mim ... pode estar sendo observada ou paquerada por estranhos ... afinal sua beleza era invejável.
- Mande um abraço para ela por mim. – dei um sorriso e apertei os olhos.
Quando abri os olhos vi a camisa dançando no ar, os cabelos iam na direção contrária do vento, e já não havia volta. Sua cara tinha um ar de susto, e logo depois um grande sorriso se estampou no seu rosto, seguido de duas lágrimas de felicidade, por estar indo ao encontro de sua amada ... era o final feliz que todas as pessoas sonhavam em ter, era um salto para algo muito maior e mais alto do que uma queda de mais ou menos trinta e nove metros ... para ele seria como estar sempre com Maria, porém agora não iria mais precisar de seringas, e com mais uma vantagem: aquele sonho não iria mais acabar.
“boom! bye bye artista”